
(3 de dezembro de 2011) 525600 minutos. 8760 horas. 12 meses. 365 dias. Um ano.
Ainda consigo me lembrar das primeiras palavras que escrevi pra você de forma tão exata que sinto até um pouco de medo. Parece que foi ontem, não parece? E sempre me pergunto como um sentimento tão grande e tão forte surgiu em tão pouco tempo - melhor: quando ele surgiu? Porque eu já não consigo discernir. A impressão que tenho é a de que sempre estivemos como somos agora: melhores amigos, de longa data. Tão curioso, tudo isso. O tempo parece tão curto pra que nossa amizade tenha evoluído a esse ponto e, ao mesmo tempo, tão longo - afinal, de fato, já se passou um ano. E um ano no fake não é pra qualquer um, hm?
Seja como for, ouso dizer que poderia passar muitos outros anos em tua companhia, pois o bater das horas, o passar dos dias, semanas e meses parece não surtir efeito sobre nós. Corrijo-me: não surte efeito negativo, pois cada vez mais aprecio as horas que passamos juntos, as conversas ou os silêncios que compartilhamos. E cada dia longe de você não serve senão para acentuar o reconhecimento de que, não, não há quem possa te substituir. Não há quem faça piadas melhor que você, quem saiba me irritar melhor que você, quem saiba me trollar tão bem quanto você; não há alguém mais gentil e tosco ao mesmo tempo, alguém tão carinhoso e atencioso, alguém tão diferente e, ao mesmo tempo, tão próximo de mim.
Porque… você já reparou nisso? No quanto somos diferentes? Em personalidade, em opiniões, no modo de agir. E mesmo assim nos damos tão bem. Não vou dizer que é porque “nos completamos” - ultrapassamos qualquer clichê. Antes, somos assim porque os poucos detalhes que compartilhamos são cruciais: a curiosidade pelo novo, o reconhecimento e o respeito um pelo outro, a grande capacidade de sentir, mesmo que de formas diferentes. E acima de tudo isso e de todas as adversidades que tenham surgido ou possam vir a surgir, está nossa vontade de continuarmos juntos. Absolutamente essencial.
Por fim, o que mais posso dizer? Que te amo de uma forma maior e mais intensa do que as palavras podem descrever? Que em mim você vai sempre encontrar uma amiga, aconteça o que acontecer? Ou que talvez fui a pessoa mais sortuda do mundo por ter te achado em meio àquele lixo de comunidade que é a Orb? Não… Eu sei que, mesmo que eu não diga, você já sabe de tudo isso, simplesmente porque pode sentir. A única coisa que me vem à mente agora é uma simples palavra que, embora pareça pouco diante da complexidade disso tudo, atende de forma sincera e sucinta o tudo o que tenho pra dizer: obrigada. Por simplesmente existir, por ser quem você é, por ter entrado em minha vida de forma tão singela e devastadora. Obrigada, meu amigo, meu amor, meu little John.
D, B, A ou L, eu vou mantê-la sempre junto a mim.
“A única coisa que me lembro a respeito do pequeno Quixote é que jamais seguiu corretamente os termos impostos nas minhas propostas de redação. Sempre – e isso não se trata de uma hipérbole – brindava-me com um texto delirante e de horror grandioso, extraído com uma conspícua facilidade daquele cérebro pouco anoso. Uma pena, pois sempre precisei dar-lhe zero a contragosto, afinal, as demais crianças perguntar-se-iam por que texto de formato tão impróprio – dantesco apenas aos olhos que se achegam ao conteúdo – recebera mais mérito do que as sopas ralas que usualmente recebem os professores do Ensino Médio. Tudo que sempre ousei descobrir a respeito de William Bairrfhionn, ademais, restringiu-se a sua capacidade de camuflar-se em inúmeras personalidades distintas e tecer os mais absurdos e herméticos delírios; todos entregues aos sábado durante as aulas de redação, num papel amarelado borrado de nanquim. Tudo aquilo que de sua boca jamais saiu, uma vez que a fala pouco ou nada tem valor às pessoas destinadas a grandes feitos, mesmo que dentro de suas cabeças. Veja bem, o pequeno não era alguém de personalidade restrita, ele não possuía identidade. Era uma legião, um armário de outras personalidades, as quais eu conhecia a cada tarde de sábado. Por isso, até hoje, quando me destituo das obrigações e me pego navegando no caudaloso rio de memórias, Bairrfhionn atinge-me como uma queda d’água. Ainda incomoda-me seu olhar longínquo e nefando, como se todas as criaturas que se ocultavam em seu jovem âmago tentassem, desesperadas em sofreguidão, devorar os arredores, como um buraco negro onde tempo e espaço se confundem até deixarem de existir. Contudo, o pesar pede licença. Temo que tais criaturas, tais personalidades, certo dia – talvez num sábado – saiam até nenhuma sobrar. Temo que, ao deixar escapar a última delas, a legião se torne vazia e o eco da voz rouca do menino – a qual raras vezes posso afirmar ter ouvido – ribombe infinitamente, aqui, ali, sem nada mais encontrar no valhacouto sombrio. E então, esse paulatino fim se torna terrível demais, a meu ver, para se continuar refletindo acerca.”
G.